segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Peito x Dedo x Chupeta


Hoje vim apenas colar um texto que pedi emprestado da Déia, uma dentista odontopediatra e ortopedista dos maxilares, que postou numa lista do Yahoo que participo sobre amamentação. Super interessante e muito importante, diga-se de passagem!


"Vou tentar explicar um pouco da diferença peito x dedo x chupeta, através de uma espécie de "parecer técnico" embasada nas evidências da Ortopedia Funcional dos Maxilares.
 
1. Dedo é natural; chupeta, não! 
Chupar o dedo faz parte do processo de desenvolvimento do bebê. Muitos já o fazem desde o útero! É uma exploração inerente à fase oral (que vai até em torno de 1 ano e meio a 2 anos de vida). E como muitas já falaram, com o tempo e a presença de outros estímulos (alimentos, brinquedos, mordedores, engatinhar, andar, falar, etc...) o dedo vai sendo esquecido. Isso é o normal, não há motivos para preocupações! Tem fases, que o bebê pode querer chupar mais mesmo, até a mão inteira, como por exemplo, quando os dentinhos estão para nascer, pois a gengiva coça, dói, irrita. Mas passa!
A chupeta é imposta pelos pais e não faz parte do desenvolvimento natural, tanto é que a maioria dos bebês demora a aceitar a dita cuja. A sucção feita com a chupeta é bem diferente da sucção normal feita no peito, pois os músculos são utilizados de forma diferente (ou seja, chupeta é uma academia de ginástica anti-natural) . Vou colocar abaixo uma tabelinha dos músculos que funcionam no peito e na chupeta ortodôntica, pra vcs terem uma idéia do qto é diferente:

 
                                         Amamentação                                                                 Bico ortodôntico
Bucinador (bochecha)                 +     (normal)                                                          +++++  (hipertônico)
Língua                                  +++++ (normal, anteriorizada e dorso baixo)                         +     (muito hipotônica, posteriorizada e dorso elevado)
Lábio superior                        +++++ (normal)                                                               +     (hipofuncional)    
Lábio inferior                             ++   (normal)                                                               +     (hipotônico)
 




2. O dedo é mais anatômico do que a chupeta.
Tomando como padrão ouro de sucção infantil a amamentação, observa-se que ao sugar o dedo, este fica numa posição mais parecida dentro da boca com o bico do peito da mãe. Ele vai até o limite entre o palato duro e o palato mole, estimulando nesta região o desenvolvimento de um ponto neural chamado de "ponto de náusea". A língua tb fica numa posição mais parecida com a da amamentação (mais anteriorizada) . Já a chupeta não tem uma proctratibilidade tal qual o peito, e seu bico ou termina no meio da boca (no caso das chupetas normais) ou logo na entrada da cavidade oral (no caso das ortodônticas) , atrás da região dos incisivos superiores; estimulando erroneamente aí a formação daquele ponto neural. Com a chupeta, a língua é "empurrada para trás" (na garganta), ficando numa posição mais posteriorizada, com a ponta baixa e o dorso elevado, ao contrário do que seria o normal.Tanto o dedo é mais fisiológico e anatômico, que não atrapalha a amamentação, enquanto que a introdução de bicos artificiais pode sim atrapalhar (a chamada "confusão de bicos") ou ainda comprometer o ganho de peso, pois o bebê tende a solicitar menos o peito. 
 
3. Hábitos de sucção não-nutritivos persistentes causam estragos!
Não importa se for o dedo, a chupeta, o lábio, a língua, o braço, um brinquedo, paninho, seja lá o que for... Os estragos são semelhantes: palato profundo e atrésico, queixo pequeno e retro-posicionado, base do nariz estreita, olhar caído, perda do vedamento dos lábios, respiração bucal, alteração de posição e tonicidade da língua, alterações na rota de crescimento dos ossos da face, dentes tortos, falta de espaço, dificuldades para respirar, mastigar, engolir, falar, distúrbios do sono - ronco, apnéia, bruxismo, terror noturno... - problemas posturais da coluna, patologias respiratórias de repetição -rinite, bronquite/asma, sinusite, amigdalite, otite, gripes/resfriados frequentes -, etc. etc. etc. 
Daí vem o medo da maioria dos pais e profissionais quanto ao dedo, justificando que a chupeta é mais fácil de tirar. O que é um erro! 
A grande maioria dos bebês vai deixar de chupar o dedo naturalmente (como já foi explicado), até o final da fase oral se receber estímulos positivos: amamentação com boa-pega, em livre demanda, mamando até ficar satisfeito, desmame gradual e preferencialmente prolongando a amamentação nos primeiros anos de vida da criança, uma introdução de alimentos bacana, tanto na qualidade como na consistência, ter liberdade para explorar o ambiente, brincar, colocar coisas na boca...enfim, se o desenvolvimento estiver normal, é uma fase e passa! Caso isto não ocorra, é necessário avaliar o que aconteceu e intervir para que as coisas voltem ao seu curso natural. Para ajudar, existem profissionais de várias áreas (dentista, fono, psicólogo, pediatra...) . Temos uma técnica chamada de Mamilo, utilizada por alguns dentistas ortopedistas capacitados, que é super legal e 100% eficaz para remover qq hábito oral q se prolongue além do normal; e que atua não contra o hábito, mas a favor da biologia e da fisiologia da criança, consertando os estragos que houverem e ao mesmo tempo esgotando a necessidade neural de sucção que tenha ficado.
A chupeta um dia será tirada pelos pais e, se a criança ainda não tiver esgotado essa necessidade neural até então, muito provavelmente substituirá por outro hábito (roer unha, arrancar "pelinha" do dedo, morder lápis/caneta. ..). Nesse caso, não é uma fase que passa, é dado pra depois ser "arbitrariamente" tirado (qdo achamos q está "na hora"). E não existe uso racional de chupeta, como muitos dentistas preconizam. Afinal, os pais não têm como saber a medida certa do qto o bebê precisa sugar para se satisfazer, enquanto que o dedo, o bebê auto-gerencia (! rsrsrs). 
Ah, outra coisa: muitos profissionais falam que é só tirar a chupeta que o dentinho torto volta pro lugar. É verdade, mas o osso todo que "entortou" não volta! E no futuro faltará espaço para os dentes permanentes, além de outros problemas morfo-funcionais muito mais graves.
 
4. Não é tudo culpa da genética!
Colocar a culpa apenas na genética está errado. Na verdade, os fatores ambientais são fundamentais na manifestação de certas características. E por isso nossas escolhas por eles são tão importantes! Claro que existem biotipos mais suscetíveis aos hábitos e outros mais resistentes. Entretanto, se considerarmos que a função determina a forma, e a chupeta prejudica a função...isto quer dizer que a chupeta deFORMA! (mais que o dedo que prejudica menos as funções). Vou tentar explicar melhor: vamos supor (uma estória, bem trágica, hein) dois irmãos gêmeos. Um deles caiu do berço quando era bebê e ficou paraplégico (toc, toc, toc, bate na madeira 3x! rsrsrs). Vcs concordam que, apesar da genética idêntica, o desenvolvimento entre os dois irmãos será bem diferente? Um terá as pernas atrofiadas e o outro não. Na boca acontece a mesma coisa! Ela atrofia por falta de uso, ou melhor, por funcionar errado. Os estímulos neuro-motores do ambiente influenciam diretamente o crescimento. E a chupeta é um estímulo (neuro-motor) patológico, que condiciona a boca a funcionar errado. Vcs sabiam que 80% do crescimento mandibular ocorre até os 6 anos de vida? E já repararam como a face e boca do bebê cresce rapidamente no primeiro, segundo anos? Por isso que estímulos ruins neste período são tão "catastróficos" , digamos assim.
 
5. Todo mundo conhece alguém que chupou chupeta e tem dentes ótimos ou q ficou até com o dedo torto de tanto que chupou o dedo...
Bem, tudo é relativo. Na minha área, eu tenho certeza de que são poucos os profissionais que sabem detectar precocemente uma mal-oclusão (isto é, antes dos 6-7 anos; lá por 2a, 3a ou até menos). Muitas vezes os sinais são sutis e incipientes (os dentes até parecem normais), e passam despercebidos pela maioria dos pais e profissionais. Até hoje na minha prática, não encontrei uma única criança que tenha "escapado ilesa" de um hábito de chupeta. Já vi, sim, casos de biotipos mais favoráveis nos quais os danos foram menores. Por outro lado, é uma porcentagem muito pequena de crianças que "viciam" no dedo, e hoje existem formas eficazes e tranquilas de remover o hábito bem precocemente (lá por volta dos 2 anos), sem traumas.
 
Ou seja, acho que deu pra entender a mensagem: o dedo é menos pior!!! Acho válido usar algumas técnicas qdo a criança está chupando o dedo como oferecer o peito, distrair a criança com alguma outra coisa, brincar, cantar, desviar a atenção...reforç o negativo ("tira o dedo da boca", "é feio", "é sujo", "ai, que nojo"...) não é produtivo e pode servir até como forma de chamar a atenção dos pais. Nossa ansiedade com o dedo tb pode ser percebida pela criança, estimulando- a a chupar ainda mais. Agora, dar chupeta...NÃO!
 
Desculpem se fui um pouco radical, mas depois de estudar a fundo como as chupetas funcionam, e lidar no dia-a-dia profissional com seus efeitos, não dá pra defendê-las, nem um pouquinho!.. 
 
 
Obs.: Mamadeiras, IDEM! mas aí já é outra história...
 
Bjs a todas
 
e boas escolhas (agora um pouco + informadas)
 
Déia (dentista odontopediatra e ortopedista dos maxilares), casada com o Fag (dentista professor de pós-graduação, homeopata, ortodontista e ortopedista funcional dos maxilares) e mãe da Luiza (8m, só de peito e papinha, sem chupeta, que gosta de chupar o dedinho de vez em quando)."

3 comentários:

  1. Muito bom texto, parabéns tb sou odontopediatra e concordo Mirce

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  2. Onde leio sobre a técnica chamada de Mamilo, utilizada por alguns dentistas ortopedistas capacitados?

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  3. Olá,Ana,achamos o seu Blog muito interessante e gostaríamos de propor-lhe uma parceria.
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