sábado, 12 de fevereiro de 2011

POR QUE É TÃO ÁRDUO CRIAR UM BEBÊ?

Hoje arrumei um tempinho pra vir atualizar o blog. Permaneço em êxtase com o livro da Laura Gutman e a postagem de hoje é um trecho dele. A vontade que dá é copia-lo inteiro mas sinceramente, vale muito a pena tê-lo em mãos para ler e re-ler quantas vezes quiser!
Aproveitem essas sábias palavras, internalize-as e reflitam sobre sua própria sombra.






"Todas as mães são capazes, desde que tenham um mínimo de apoio emocional, de amamentar, ninar, higienizar um bebê, de proporcionar cuidados físicos necessários à sua sobrevivência. São treinadas para esta tarefa brincando com bonecas durante toda a infância. A dificuldade aparece quando é necessário reconhecer, no corpo físico do bebê, o surgimento da alma da mãe, em toda sua dimensão. Devem admitir sua fragilidade, como "mãe-bebês". Cuidar-se como tal. Respeitar-se com essas novas qualidades. Ser paciente nesta fase tão especial e não exigir de si um rendimento igual ao habitual. Abrir-se à sensibilidade que é aguçada e à percepção das sensações que são vividas com um coração imenso e um corpo que elas, mães, sentem pequeno porque são, ao mesmo tempo, bebê e pessoa adulta.
É como ter o coração aberto, com suas misérias, alegrias, inseguranças, com todas as situações que precisam ser resolvidas, com o que lhes falta compreender. É uma carta de apresentação frágil: isto é o que sou no fundo de minha alma; sou este bebê que chora.
Poderíamos considerar uma vantagem exclusiva das mulheres a possibilidade de desdobrar o corpo físico e espiritual, permitindo que as dificuldades ou as dores pessoais se manifestem com absoluta clareza.
O bebê sente como se fossem seus todos os sentidos da mãe, sobretudo aqueles dos quais ela não tem consciência. A maioria das mulheres não aproveita essa vantagem de ter a alma exposta; é arriscado encarar a própria verdade. No entanto, este é um caminho que inevitavelmente elas percorrerão, embora seja pessoal a decisão de fazê-lo com maior ou menos consciência.
Por isso, ao tentar entender o processo de compreensão dos bebês e das crianças muito pequenas, é indispensável não esquecer que o ser com quem tentamos nos comunicar é, ao mesmo tempo, a mãe que o habita. De fato, as pessoas que trabalham com crianças pequenas deveriam encontrar uma maneira de agir em união com a mãe. Sem a informação pessoal da mãe, sobretudo a informação a que se deve recorrer para que venham à tona, as manifestações das crianças carecem de sentido. Qualquer expressão incômoda do bebê é apenas a melhor linguagem que encontrou para se comunicar. Não é o que acontece; é apenas um modo viável de se expressar.
Quando nossa alma é exposta no corpo do bebê, é possível ver mais claramente as crises que ficam guardadas, os sentimentos que não nos atrevemos a reconhecer, os nós que continuam enredando nossa vida, o que está pendente de resolução, o que descartamos, o que é inoportuno. Às vezes as crianças expõem as crises de maneira tão contundente que só assim tomamos consciência da importância ou da dimensão de nossos sentimentos. Porque tendemos a não lhes dar maior atenção, a considerá-los banais e a relegá-los à nossa sombra.
Criar bebês é muito árduo porque, assim como a criança, para ser, entra em fusão emocional com a mãe, esta, por sua vez, entra em fusão emocional com o filho para ser. A mãe passa por um processo análogo de união emocional. Ou seja, durante os dois primeiros anos, é fundamentalmente uma "mãe-bebê". As mulheres puérperas têm a sensação de enlouquecer, de perder todos os espaços de identificação ou de referência conhecidos; os ruídos são imensos, a vontade de chorar é constante, tudo é incômodo, acreditam ter perdido a capacidade intelectual, racional. Não estão em condições de tomar decisões a respeito da vida doméstica. Vivem como se estivessem fora do mundo; vivem, exatamente, dentro do "mundo-bebê".
E é indispensável que seja assim. A fusão emocional da mãe com o filho é o que garante que a mulher estará em condições emocionais de se desdobrar para que a cria sobreviva.
O desdobramento da alma feminina ou a sua fusão emocional com a alma do bebê é indefectível, mesmo que este processo seja inconsciente. A decisão de trazê-lo à consciência é pessoal. Vale a pena esclarecer que este processo nos surpreende porque não o esperávamos, e em geral costumamos rotular de mil maneiras as sensações incongruentes das mães e as queixas indecifráveis dos bebês. Em muitos casos, são diagnosticadas "depressões pós-parto", quando a única coisa que acontece é um brutal encontro da mãe com a própria sombra."

por Laura Gutman em "A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra", p: 24-26.

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