terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O TEMPO REAL DE DEDICAÇÃO EXCLUSIVA ÀS CRIANÇAS

Mais um trecho incrível e arrebatador desse livro que nunca mais vai me deixar 'cegar' diante de nossas desculpas e vitimização...
Leiam com muita atenção, estejam realmente abertos ao que ela nos propõe. Vale a pena refletir!

O TEMPO REAL DE DEDICAÇÃO EXCLUSIVA ÀS CRIANÇAS


Quando os pais vêm me consultar por causa de crianças que não têm limites, costumo lhes
sugerir uma tarefa muito difícil. Sem me importar com a idade da criança em questão, peço que se organizem para ficar cinco minutos sentados no chão do quarto das crianças sem fazer nada. Repito: sem fazer nada. Não é necessário que brinquem com a criança se ela não pedir. Só devem observa-la e estar disponíveis. E peço para que na próxima entrevista me relatem o que aconteceu.

Embora possa lhes parecer incrível, quase nenhuma mãe o consegue. Uma vez tocou o telefone, outra vez chegaram tarde de uma festa de aniversário, outro dia foram fazer compras, em outra ocasião a sogra adoeceu. Concretamente, se dão conta dos obstáculos físicos e emocionais que a maioria dos adultos tem para se ocupar 15 minutos por dia exclusivamente de seus filhos, a quem chamam de "sua vida". Não parece crível que isso seja o que há de mais importante para eles, uma vez que sempre há situações mais prioritárias a atender. As crianças esperam, esperam eternamente que se desocupem para poder atendê-las com a cabeça e o coração inteiramente abertos a seus pedidos. Na vida cotidiana, esse instante nunca chega.

Para exemplificar melhor as experiências da criança, costumo pedir aos pais que me relatem com riqueza de detalhes o desenrolar de um dia comum, uma terça-feira, por exemplo. Depois peço que me relatem a mesma coisa como se fossem a criança que conta o decorrer dessa jornada. É muito revelador. E mais ainda quando peço que me contem um domingo, quando se pressupõe que não há pressões do trabalho, horários nem pressa. E descobrem que aos domingos as crianças ficam ainda mais sozinhas do que durante a agitada semana dde trabalho, e que tampouco no domingo conseguiram ficar sentados durante 15 minutos com as crianças no quarto.

Ficar quietos ao lado de uma criança permite que a criança se aquiete sem riscos. As mães fazem exatamente o contrário: quando estão tranquilas, correm para preparar bifes à milanesa aproveitando que as crianças estão "entretidas". Então, a criança interpreta: "Quando estou tranquila e brinco sozinha, perco minha mãe. Por conseguinte, se incomodo, reclamo, choro, minha mãe fica comigo." Por outro lado, se a criança brinca tranquila e as mães ficam tranquilamente no seu quarto, mas disponíveis, a criança aprende que, se brinca sozinha, não corre o risco de perder a mãe. Ou seja, brinca sozinha mas não está sozinha. É uma pequena grande diferença. Não é uma perda de tempo parar alguns instantes a cada dia, embora aparentemente a criança não fale conosco nem nos peça nada de concreto. Porque o que aprende é a capacidade de se satisfazer sozinha, de se acalmar, de saber que pode pedir qualquer coisa a partir do "pedido original", que será ouvido e contemplado. E não se transformará em uma criança sem limites, mas em uma criança que comunica o que acontece com ela.

Lamentavelmente, hoje em dia está muito na moda falar de limites. De fato, sou convidada com frequência a dar conferência sobre os famosos limites. Mas chegou a hora de abandonar a soberba e o autoritarismo e se voltar para dentro de nós mesmo. De investigar e contrar o que não compartilhamos com as crianças, mas acima de tudo, o que nos negamos teimosamente a admitir. Em geral, tem a ver com as limitações afetivas dos adultos, limitações que nos impedem de se relacionar com a alma aberta. As crianças lhes pedem aos gritos que abandonem os disfarces e se encarreguem de construir vínculos a partir da realidade emocional de cada um.

Trecho extraído do livro "A MATERNIDADE E O ENCONTRO COM A PRÓPRIA SOMBRA" de Laura Gutman - psicoterapeuta familiar. p: 211-213

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