quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Mãe com a própria Mãe

Hoje eu tive um in sight e senti que devia compartilha-lo aqui no blog.
Ele aconteceu enquanto eu lia o livro da Laura (depois de uma longa semana cheia de trabalho sem conseguir pegar no livro). Na página 76 ela conta um relato de um caso complicado de amamentação ligado à dificuldade da mãe em seu relacionamento com sua própria mãe.
Lembrei-me, então, do meu próprio caso.
Compartilho...

Durante toda a minha vida senti que minha mãe não sentia por mim o mesmo Amor e admiração que sentia por minha irmã mais velha (que eu Amo muuito). Essa diferença que fazia descaradamente era uma trava dentro de mim (e ainda choro em pensar nisso). Eu não podia perceber o quanto isso me fazia mal. Noites e noites chorei sozinha pensando em quando eu superaria esse sentimento e aceitaria que é natural que minha mãe não pudesse amar aos 3 filhos da mesma forma, que isso também tinha a ver com uma questão de afinidade (da qual meu pai e eu temos muita). Nunca encontrei a resposta. Um dia, decidi conhecer uma terapeuta (psicóloga) e durante a sessão eis que ela me pergunta “e como é o seu relacionamento com a sua mãe?”... as lágrimas não demoraram a lavar o meu rosto...

Em 2009 um evento mudou muito as nossas vidas. Pela primeira vez senti uma alegria e uma tristeza que nunca havia experimentado em qualquer outro momento da minha vida: minha gestação e a descoberta da anembrionária (ou “ovo cego” – quando a gestação não evolui pois o embrião não se desenvolve). Com a descoberta da gestação senti uma aproximação da minha mãe, senti um carinho muito grande. Mas o que mudou pra sempre a nossa relação foi de fato o lado triste dessa história. No dia em que descobrimos a anembrionária (com 10 semanas) eu não queria falar com ninguém porque eu sabia que nada, nenhuma palavra, ninguém iria amenizar a dor que eu estava sentindo. No fim do dia meu pai ligou (meus pais moram no interior) e foi muito gentil e querido comigo... ele me fez acreditar que se eu estava passando por aquilo é porque eu era forte suficiente para suportar... lembro-me de suas palavras “ninguém possui um fardo mais pesado do que pode carregar”. Incrível como ele me admira, como acredita que tenho um potencial que eu jamais consegui reconhecer. Ele sempre foi um alicerce. Mas o mais marcante pra mim foi sentir a minha mãe naquele momento sem sequer trocarmos uma só palavra. Minha mãe não pediu pra falar comigo ao telefone e eu sei exatamente o porque, pude sentir sua energia mesmo há mais de 200km de distância. Minha mãe compartilhava a dor que eu estava sentindo com uma plenitude que ninguém (nem mesmo o Du que estava ao meu lado e era o pai) pôde sentir. Percebi que ela não conseguiria falar ao telefone porque, assim como eu, a dor a calava, as palavras não saiam. Eu nunca tive que perguntar a ela nada sobre esse dia, eu sempre soube que o Amor dela por mim a fez sofrer junto comigo em tamanhas proporções. Desse dia em diante, eu destravei meu coração, desatei um nó e me senti realmente amada.
Em 2010 nos aproximamos um pouco mais com a temporada que ela passou aqui em SP. Foi nesse período que vi minha mãe reconhecer (não através de palavras, mas de gestos) que minha irmã e eu somos sim completamente diferentes mas que ambas possuímos os nossos valores. Lembro-me de um dia vê-la dizer: “Gosto da energia da sua casa, de como você e o Du se relacionam...”. Dentro de mim uma vibração de alegria me contagiou... pois é mãe... talvez eu não tenha seguido tudo como você gostaria, mas tenho meus princípios também... Quando ela reconheceu que dentro da simplicidade do meu lar existia paz e harmonia, percebi que reconheceu o meu valor. Minha irmã linda é uma mulher incrivelmente bem sucedida, que se veste bem, que fala bem e enche minha mãe de mimos... ela é realmente apaixonante. Eu sou a “ovelha negra”, que não se prende em nenhum emprego fixo, nada “workaholic”, que quer ganhar o suficiente pra se manter e aproveitar o resto do tempo jogando baralho com os amigos, curtindo uma piscina ou uma praia, fazendo bolo com as sobrinhas... Eu sei que me falta um pouquinho de ambição mas me sinto muito feliz assim...
O importante é que não tenho mais um nó na garganta, uma coisa mal resolvida, um mal estar permanente.
Minha vida segue, minha mãe me ama e pronto.
Cada filho com sua peculiaridade mas com uma coisa em comum: um AMOR IMENSO!

Obrigada mãe, por me fazer sentir amada, você não faz idéia de como isso foi importante pra mim!

Acho que o relato acabou ficando muito extenso, peço desculpas.
Eu estava precisando desse desabafo com o teclado! Rs

Escrevi tudo isso porque já percebi muitas vezes, acompanhando partos ou casos difíceis de amamentação, que a relação com a mãe sempre pesa!
Recentemente acompanhei o caso da M. que me ligou aos prantos porque sua mãe passou a noite em sua casa para ajuda-la com o netinho recém nascido e numa crise de choro do bebê ela falou pra sua filha “Você tem que dar uma mamadeira pro seu filho, você não percebe que está matando seu filho de fome???”
Esse caso já tem dois meses, M. conseguiu amamentar seu bebê com um seio mas o outro parou de produzir por falta de estímulo (como o mamilo era mais difícil de pegar ela não oferecia mais). Percebi que M. passou a acreditar que estava realmente fazendo seu filho passar fome (que foi reafirmado pela fonoaudióloga que diagnosticou uma disfunção oral do bebê e lhe disse “seu filho não bebe uma gota do seu leite”). Hoje ela está numa amamentação mista (70% Leite Materno e 30% leite artificial). Percebo que ela poderia reverter esse quadro facilmente estimulando a outra mama mas sinto que o que lhe aconteceu (somado ao fato de que “nenhuma das mulheres de sua família conseguiu amamentar”) não a encoraja a tentar. Conversamos um pouco sobre isso e pensamos juntas no que as palavras da avó poderiam representar: com uma mamadeira na história, a avó poderia ser mais ‘útil’ para o bebê além de que, alimentar é algo que as vovós adoooram!

Bem... ainda iria muuuito além mas acho que por hoje é só!
Se você tem um relato legal pra compartilhar, coloque-o como “Comentários”, eu vou adorar e outras mães também poderão refletir sobre suas experiências pessoais.

Mãe é assunto sério! =D

Vale a pena repensar sobre sua relação com sua mãe e colocar ‘cada coisa em seu lugar’. É uma experiência muito forte e incrivelmente transformadora!

por ana garbulho

2 comentários:

  1. Oi Ana!
    Pois é, são nessas horas que percebemos a influencia de nossas relações...

    Apesar de tudo, é um belo depoimento...

    Beijo

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  2. Ana, que relato lindo!!
    É lindo ter a coragem de procurar respostas, de mergulhar na própria sombra e dar-se conta de suas próprias questões...
    lindo...
    Deus a abençoe!!

    Mara

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